
Por: Antonieta Dias (*)
A Pandemia originada pelo COVID 19, originou uma situação de catástrofe nacional e internacional, tendo no decurso de cerca de um ano provocado um número elevado de mortes, de doentes infetados sintomáticos e não sintomáticos cuja previsão e de que vai continuar a subir nas próximas semanas.
Todavia, não podemos permitir que continuem a ser emanadas decisões baseadas em critérios de “salve-se quem puder”, muito menos abandonar/ adiar os tratamentos das outras patologias graves e urgentes que matam muito mais do que a COVID 19.
Não podemos permitir que esta situação se mantenha por mais tempo.
Todos sabemos que a desorganização, a permissividade de alguns eventos transformou o Serviço Nacional de Saúde (SNS), já de si fragilizado num verdadeiro caos, onde os profissionais exaustos, já não conseguem dar mais.
Os doentes em sofrimento, vão morrendo e há cada vez mais dificuldade na logística e na resolução deste grave problema, o que já de si complexo ainda obriga a que se faça uma seleção de quem vai ter direito a ser tratado ou não.
Esta é uma estratégia utilizada na medicina de catástrofes, perante um cenário de guerra.
A teorização da medicina de catástrofe nasceu em 1980, originou uma nova forma de exercer medicina, obrigou a uma logística na determinação dos cuidados médicos adaptados à sobrevivência.
Perante a impossibilidade de tratar todas as vítimas ao mesmo tempo, o médico deve dar prioridade aqueles que necessitam de cuidados mais urgentes.
Mas a medicina de catástrofe é uma medicina de exceção perante um cenário de guerra.
E nós estamos a viver momentos inacreditáveis, e horríveis, sem solução há vista para salvar os nossos doentes.
Freud na sua obra Psicopatologia da vida quotidiana descreve como através das nossas reações, detalhes e formas de comportamento simples e aparentemente sem significado, demonstramos o modo habitual de ser, que afeta o nosso conhecimento e a nossa forma de estar no mundo.
Se não tivermos o sentimento do Valor da Vida Humana não sobreviveremos.
Nada acontece por acaso, todavia, os planos e sistemas de auto – regulação que cada pessoa tem determinará as normas na resolução das situações específicas na construção do percurso individual de acordo com a sua cognição.
A tipologia da codificação e a caracterização dos fatos é um processo seletivo dependente do nosso grau de informação e do conhecimento que adquirimos no Saber.
Quase toda a nossa conduta é aprendida, sendo as metas e os comportamentos que determinam a nossa estrutura social e nivelam as expectativas que nos induzem, segurança, autodeterminação e capacidade de decisão perante os obstáculos que nos vão surgindo ao longo da vida.
É evidente que a forma intuitiva que determina a maneira espontânea como reagimos de forma operativa, vai depender da diversidade teórica que assimilamos e das nossas características pessoais.
A aprendizagem e a estratégia no desenvolvimento da resolução dos problemas será mais ou menos rápida conforme o grau de processamento da informação, de acordo com as expectativas que possuímos e que nos permitem ter uma conduta adequada.
Os modelos que adotamos no tratamento dos doentes baseiam-se na aplicação da ciência, na arte e na humanidade que possuímos em cuidar e sobretudo no desejo final de salvar a vida ao paciente.
A assertividade e a autoafirmação delimitam os direitos e as obrigações na preservação da Vida Humana.
Mesmo numa situação de catástrofe a nossa relação com a preservação da Vida não pode ser prejudicada, muito menos manipulada por interesses menos nobres e injustos.
Não podemos sentir-nos derrotados perante factos que nos pareciam impossíveis de obter, muito menos comprometermo-nos com decisões inadequadas e que repudiamos em absoluto.
A nossa força tem de ser suficientemente forte para combater as leis que violam o direito à Vida.
Não podemos continuar a assistir a decisões que não serão certamente as mais adequadas na resolução da Pandemia COVID 19, nem no tratamento das outras patologias.
Em suma, é urgente alterar o sistema, diminuir o numero de vitimas e exigir a aplicação de medidas baseadas no conhecimento científico e na experiencia de quem sabe.
(*) Médica