
Por: Marina Maltez
“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”.
Oscar Wilde
“A vida é maravilhosa se não se tem medo dela”.
Charles Chaplin
Porque usas essa vassoura mágica doce princesa? Porque não despes esse manto de medo colado a ti como segunda pele? Porque não permites que a tua alma sinta mais do que dor, mera lenta e pesada passagem do tempo? Porque não ousas abrir as portas e janelas que te rodeiam? Sabes as maravilhas que podem ter à tua espera? Os mundos de sensações, cores, cheiros e vivências que estás a perder? Porque usas essa vassoura mágica doce princesa? Não te doem já as mãos de tanto varrer o futuro com medo do que ele reserva? Varre antes o passado. Aquele que permites que te magoe ainda. Aquele que te faz acordar em sobressalto e te prende em pesadas correntes de memórias sofridas, doridas, mas passadas. Varre de vez tudo quanto te atormenta, tira as ervas daninhas que teimam em permanecer no teu jardim. És dona e senhora do teu castelo e do que o envolve. Bate o pé, manda um murro na mesa, mas dita as regras, escreve-as de novo se preciso for. Faz à tua imagem e semelhança que a dor sofrida e passada deu-te permissão para pegares na caneta e fazer tudo de novo!
Porque usas essa vassoura mágica doce princesa? Secaram-te as lágrimas, ainda não viste? Vagueias descalça pela estrada da vida, ao sabor dos ventos e correntes que te põem à prova diariamente. E tu, filha do mar, navegas com mais ou menos firmeza, mas navegas e segues seguindo o teu instinto. Então porque temes o futuro? Porque temes o abraço que tanto queres e repeles? Porque não sacias a sede da tua alma em tormento quando a fonte está diante de ti? Pousa a vassoura doce princesa. Deixa o fardo que carregas. Se havia preço a pagar, está pago. Podes seguir sem medos. Podes iluminar o rosto com um sorriso, tu princesa de olhar triste e sombrio e semblante distante e fechado. Porque permites que te julguem como fria, logo tu que em ti tens o fogo da vida?

Senta-te aqui a meu lado. Sente a frescura da relva nos teus pés, solta o manto de cabelo que escondes do mundo e de ti. Sê mulher sem medos. Liberta a gargalhada presa na garganta! Diz sim ao que te faz feliz! Abre as portas onde mora a alegria e fecha já aquelas onde bate a tristeza e a dor….já chega! Xiu….não. Não justifiques mais nada. Não tens nada a justificar. Só uma vida para viver do modo que te parecer bem. Daquele modo tão teu, de quem se entrega de corpo e alma a tudo quanto faz, por menor que seja. Entrega tão pura, autêntica, genuína, como se o amanhã já fosse tarde demais…
Encosta a tua cabeça no meu ombro…descansa enfim das tuas tantas guerras…quem perdeu? Quem ganhou? Não importa agora. Importas tu. Larga a vassoura mágica doce princesa….corta o fio que te prende…levanta a âncora que te mergulha nesse lago gélido de medos, receios, rancores, escuridão…vomita de vez o veneno que te corrompe as entranhas mulher com a mesma força de quem dá um filho ao mundo!
Larga a vassoura doce princesa…e por uma vez prova o sabor da vida…
Deixa o teu castelo sem medos…segura de ti. Só te magoa se o permitires. Então não o permitas. Ergue a cabeça. Finca o olhar no horizonte. Sorri para os desafios, abraça-os como tesouro precioso e faz do mundo o palco da tua vida…inventa a história, muda as personagens, transforma o cenário ao teu gosto e atreve-te a não ter medo de viver!
Agarra a minha mão. Com mais força! Isso, agora sim! Vamos os dois….como no princípio… que eu nunca te deixei, nem por um segundo. Tu é que estavas sofrida demais para me ver, para me sentir.
Agora sim. Estás de pé! Finalmente o teu corpo elevou-se… olha para mim com firmeza…mais firmeza ainda! Isso princesa teimosa! Não…não soltes nem mais uma lágrima. Tens-me aqui. Dava-te colo mas é hora de caminhar. O Tempo passou e não deste por isso criança crescida. Vamos. Tens a mão fria como sempre, deixa estar eu aqueço por agora. Vamos. Há um caminho a fazer. Vamos juntos, como sempre…e para sempre…já te disse que és teimosa? Disse. Vá, não te zangues. Ali à frente está uma porta. Contas-me o teu dia no caminho para lá…sim, vamos para lá e mais além ainda. Vá. Coloca de novo as tuas asas. Voa. Voamos juntos ao sabor dos teus sonhos. Deixa o sol aquecer-te… está na hora de viver…
P.S.: Talvez estas fossem as palavras que ela gostaria de ouvir do Pai…ou parte delas. Mas certamente seriam um bálsamo…